quinta-feira, 1 de abril de 2010

A COSTELA DE ADÃO

Ando exausta.Sinto dentro de mim que quero paz.

Paz das plantas. Paz de criança dormindo.

Quero um homem que vele pelo meu sono, tire carinhosamente

os meus sapatos, me leve mansamente para a cama e me cubra

com o mesmo carinho de uma mãe com seu bebê.

Quero que ele traga chá quente para me aquecer por dentro

e ache graça no meu nada-fazer.

Quero um quarto macio e cor-de-rosa,

com cortinas românticas nas janelas,

para filtrar a luz forte e penetrante do dia.

Quero que ele me dê banho de banheira.

Nada de conversas intelectuais.

Na realidade, não quero nem que ele me diga

palavras mansas de amor apaixonado.

Não quero ser desejada fisicamente.

Quero apenas a presença dele, discreta e silenciosa.

Que fique ali, fazendo as suas coisas e contemplando,

com olhar doce e sem súplica, a minha quietude.

Quero o amor do meu homem, seu sexo em ereção por mim,

mas sem que me solicite nada.

Que seu coração emocionado e seu sexo desejante

não me invadam o corpo ou me penetrem a alma.
 
 
Eu o quero disponível, ali, para a hora em que eu o desejar.

Quero que não se magoe por nem sempre
=
eu estar disponível para ele.

Que seu sexo pertença ao meu corpo como um dedo de minha mão,

mas que não me pressione.
=
Quero que ele sinta o meu amor e o meu desejo por ele.

Ah, se ele pudesse me entender nesse meu temo deleite!

Ah, se ele pudesse ser um manso regaço para a minha exaustão!

Que bom se ele pudesse viajar comigo em busca de paz!

Sei que estou pedindo muito, mas não quero isso para sempre.

É só por algum tempo, como alguém que precisa dormir

para despertar com novas energias.Preciso passar só uns dias

nos jardins do Éden, comendo os doces frutos do paraíso.

Quero uma pausa nos orgasmos do corpo e dos sentimentos. 


Quero repouso no êxtase.

Ele nem imagina como seria maravilhoso

se pudesse me acompanhar

nessa viagem, mansamente e cheio de prazer.

Ele me veria repousada e saciada da minha fome de paz.

E presenciaria o meu amanhecer, cheio de genuína gratidão

e encantamento por ele.

Desse sono reparador eu sairia restaurada.

Eu voltaria, de corpo e alma, para o lindo universo da paixão.

Meus sentimentos e desejos entrariam em erupção.

Minha cabeça, num cio intelectual. Eu recuperaria todo o meu gosto

pelos prazeres masculinos - até ao futebol eu iria.

Mas que ele vivesse, pelo menos durante um tempo,

os meus prazeres femininos.

Um prazer pré-sexual, pré-emocional, pré-amoroso.

A sensação de ser criança pequena aconchegada

nos braços tranquilos da mãe.

Todo um clima de bonança tão necessário a quem navegou

nas tempestades.

Ah, se o homem soubesse disso, quanto prazer ele não seria

capaz de extrair de sua mulher!

Quantas noites de amantes enlouquecidos ele não viveria!

Se o homem pudesse arejar o seu vigor masculino,

deixando penetrar em suas brechas as brisas femininas.

Que sua renúncia transitória à busca aflita de encontros

pudesse deixar nele a certeza de que encontros rejuvenescidos

não tardariam a vir.

Estou convencida de que muita mulher jamais se entregou

a seu parceiro porque ele jamais se entregou a ela.

O masculino não soube enxergar o feminino

nas suas formas mais extremas,

de puro deleite de sensações plácidas.

Essa necessidade feminina é vivida pelo homem como rejeição,

frigidez, recusa e desamor.

Por isso, tantos garanhões de raça não conseguem despertar

a potranca puro-sangue que sua mulher recolhe nas entranhas.
 

Do livro "A costela de Adão" Eduardo Mascarenhas

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