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quinta-feira, 8 de abril de 2010

FOI PRA MIM?


Foi para ti
Que desfolhei a chuva
Para ti soltei o perfume da terra
Toquei no nada
E para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
E todas me faltaram
No minuto em que talhei
O sabor do sempre
Para ti dei voz
Às minhas mãos
Abri os gomos do tempo
Assaltei o mundo
E pensei que tudo estava em nós
Nesse doce engano
De tudo sermos donos
Sem nada termos
Simplesmente porque era de noite
E não dormíamos
Eu descia em teu peito
Para me procurar
E antes que a escuridão
Nos cingisse a cintura
Ficávamos nos olhos
Vivendo de um só
Amando de uma só vida
=
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terça-feira, 23 de março de 2010

PESCANDO ESTRELAS


Assim que anoiteceu, saiu para pescar.

Peixes não, estrelas.

Afastou-se da casa, atravessou um campo até o seu limite.

Na linha do horizonte, sentado à beira do céu,

abriu a caixa das frases poéticas que havia trazido como iscas.

Escolheu a mais sonora,

prendeu-a firmemente na rebarba luzidia.

Depois, pondo-se de cabeça para baixo,

lançou a linha no imenso azul, deixando desenrolar todo o molinete.

E paciente, enquanto a Lua avançava sem mover ondas,

começou a longa espera

de que uma estrela viesse morder o seu anzol.


Marina Colassanti
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sexta-feira, 19 de março de 2010

DO QUE CARECEMOS?


Não é da luz do sol que carecemos.

Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e,

afinal, nós pouco aprendemos a ver.

O mundo necessita ser visto sob outra luz:

a luz do luar; essa claridade que cai com respeito e delicadeza.

Só o luar revela o lado feminino dos seres.

Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre.

Necessitamos não do nascer do Sol.

Carecemos do nascer da Terra.



Mia Couto
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sábado, 13 de março de 2010

O SILÊNCIO DE DEUS


Que irás dizer?
"Olha em redor, desde os milhões de estrelas pelas alturas,
às pedras, à água, aos animais e às plantas,
caminhas entre seres sem voz...
Olha mais ao redor:
Olha...
até ver o invisível e tremerás
ante o silêncio dos anjos
e o silêncio de Deus.
Agora,
fala..."
 
Dom Hélder
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

ESPERANÇA


Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se

 
E
 
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é

Es-pe-ran-ça...
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