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terça-feira, 9 de março de 2010

EU SINTO VOCÊ

"Toco sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca,
vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão,
como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse,
e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar.
Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo,
a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas,
com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto,
e que por um acaso que não procuro compreender coincide com a sua boca,
que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope,
olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores,
se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os ciclopes se olham,
respirando confundidos, as bocas se encontram e lutam debilmente,
mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes,
brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem
com um perfume antigo e um grande silêncio.
Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo,
acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo,
enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores,
de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos,
a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego,
essa instantânea morte é bela.
E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura,
e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água. "

Júlio Cortazar

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sábado, 6 de março de 2010

UMA CARTA DE INTENÇÕES (PARA ESTE SÁBADO)


Que eu possa respeitar opiniões diferentes da minha. 
Que eu possa me desculpar antes do ódio. 
Que eu possa escrever cartas de amor de repente. 
Que eu possa viajar para adorar a distância.
Que eu possa voltar para dizer o que não tive coragem. 
Que eu possa conversar com estranhos para matar a estranheza.
Que eu possa comprar fiado minha própria fé. 
Que eu amarre os sapatos dos filhos como se fosse um terço. 
Que eu pense em meu amor ao atravessar a rua. 
Que eu possa engolir o vento em cada esquina. 
Que eu possa ouvir as cigarras de noite. 
Que eu possa diferenciar as árvores. 
Que eu erre um caminho para descobrir novas paisagens. 
Que eu ajude sem questionar. 
Que eu dê conselhos sem condenar. 
Que eu não exija demais dos outros. 
Que eu possa dançar com os pés nos ouvidos. 
Que eu possa tomar banho de cachoeira. 
Que eu possa descobrir ervas curativas no corpo de minha mulher. 
Que eu prepare pratos exóticos para aumentar a fome. 
Que eu faça sinal para o trem parar. 
Que eu assobie para chamar a alegria. 
Que eu possa chorar ao assistir filmes. 
Que aproveite a luz do corpo para ler de noite. 
Que eu não seduza para confundir. 
Que eu seduza para iluminar. 
Que eu mande flores para meu próprio endereço. 
Que eu estenda a toalha da mesa como se fosse um lençol. 
Que eu não sacrifique a confiança pela covardia. 
Que eu possa repor os pássaros em seus ninhos. 
Que eu possa devolver os livros que tomei emprestado. 
Que eu não peça a devolução dos livros que emprestei. 
Que eu tenha dúvidas, melhor do que certezas. 
Que a sorte não seja o cartão furado da loteria. 
Que a poesia não fique na estante mais escondida das livrarias. 
Que minha mulher possa entender o que nem preciso falar. 
Que eu cuide das plantas da mão alisando a chuva. 
Que eu não tenha receio de ser ridículo. 
Que eu faça amizades falando do tempo. 
Que eu escreva nos livros o que os livros me escrevem. 
Que eu possa brincar mais sem contar as horas. 
Que eu possa puxar os cabelos do vento. 
Que eu use somente as palavras que tenham sentido. 
Que eu aceite os conselhos da loucura. 
Que transforme a raiva em vontade de me entender. 
Que eu não precise fechar as janelas na sinaleira. 
Que eu faça aniversário de criança nos meus 34 anos. 
Que eu me lembre de ser feliz enquanto ainda estou vivo.
= 
 
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

EM ORAÇÃO


Virgem Puríssima, que sois a Saúde dos Enfermos, o Refúgio dos Pecadores, a Consoladora dos Aflitos e a Despenseira de todas as graças, na minha fraqueza e no meu desânimo apelo hoje, para os tesouros da vossa divina misericórdia e bondade e atrevo-me a chamar-vos pelo doce nome de Mãe. 
Sim, ó Mãe, atendei-me em minha enfermidade, dai-me a saúde do corpo para que possa cumprir os meus deveres com ânimo e alegria, e com a mesma disposição sirva a vosso Filho Jesus e agradeça a vós, Saúde dos Enfermos. Nossa Senhora da Saúde, rogai por nós. 
Amém.


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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

SAUDADES DO MEU PAI 17 DE JULHO 1997

Pai,
Toma minhas mãos, que são parte da obra que Tu assinaste: eu mesmo.
Olha as linhas que são os traços do meu destino e reforma-as na medida do meu merecimento.
Olha minhas digitais que indicam não haver ninguém igual a mim, o que prova a Tua originalidade...
...examina-as e julga os crimes que porventura eu tenha cometido.

Pai,
Vê nas minhas mãos o histórico das minhas doações e até que ponto elas foram válidas.
Vê também o histórico de tudo o que recebi e julga se sou suficientemente grato.

Pai,
Nas minhas mãos estão as marcas dos serviços prestados... vê se trabalhei e tenho trabalhado da forma que Tu aprovas.
Vê quantos foram os toques de afeto e de agressão e apresenta-me o saldo.
Julga as palavras escritas em meu diário de alegrias e de aflições.

Pai,
Vê os apertos de mãos que já dei, os acenos de adeus e os sinais de sim e de não.
Estão sob Teu juízo minha honestidade e minhas dores.

Pai,
Toma minhas mãos...
Sente como se através delas o meu coração falasse.
Diz se posso olhar-Te nos olhos ou com elas esconder a minha face.


Homenagem à Luiz Gabriel, meu Pai.

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