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segunda-feira, 15 de março de 2010

A ESTALAGEM DA VIDA

 
Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até
que chegue a diligência do abismo.
Não sei onde me levará, porque não sei nada.
Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela;
poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros.
Não sou, porém, nem impaciente nem comum.
Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim.
Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem,
e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.
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quarta-feira, 10 de março de 2010

"FERNANDOS PESSOAS"


Nascido em Lisboa, no dia 13 de junho de 1888.
Adquiriu o gosto pela poesia lendo poetas de língua inglesa.
Matricula-se, então, no Curso Superior de Letras, que logo abandona, e entra em contato com os grandes escritores da língua portuguesa.
Fernando Pessoa nunca teve, em vida, o reconhecimento que merecia.
Viveu modestamente, em relativa obscuridade. Em vida, teve apenas dois livros publicados: Antinous e 35 Sonnets ambos em 1918.
Desde cedo, Fernando Pessoa inventara seus companheiros.
Imagina os heterônimos Charles Robert Anon, H. M. F. Lecher e Alexander Search e outras figuras menores.
Mas seria no dia 8 de março de 1914 que os heterônimos começariam a aparecer com toda a força. Neste dia, Pessoa escreve, de uma só vez, os 49 poemas de O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro.
Escreve também os seis poemas de Chuva Oblíqua, que assina com seu próprio nome.
Logo, inventaria Álvaro de Campos e, em junho do mesmo ano, Ricardo Reis.
Um semi-heterônimo de Pessoa, Bernardo Soares, só em 1982 teve sua obra, O Livro do Desassossego, composta por fragmentos de prosa poética, publicada.
No dia 30 de novembro de 1935, Fernando Pessoa morre de cirrose hepática.
Sua última frase foi escrita em inglês:

“I know not what tomorrow will bring” ou
Eu não sei o que o amanhã trará”.
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O amanhã trouxe para Fernando Pessoa uma admiração crescente.
Suas obras foram aos poucos sendo publicadas e ele é considerado hoje, ao lado de Camões, um dos dois maiores poetas portugueses de todos os tempos.
Nenhum poeta, em língua portuguesa, obteve tanto prestígio, e o obscuro e modesto lisboeta tornou-se, assim, um nome importante em todo o mundo.
Graças ao poder da palavra. Graças à magia da poesia.

Heterônimos
Mais do que meros pseudônimos, outros nomes com os quais um autor assina sua obra, os heterônimos são invenções de personagens completos, que têm uma biografia própria, estilos literários diferenciados, e que produzem uma obra paralela à do seu criador.
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Resumo do texto de Frederico Barbosa
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sábado, 6 de março de 2010

LAS CARTAS DE AMOR

Las cartas de amor, mi amor
Son en el fondo, ridículas,
Las cartas de amor, cuando hay amor,
Son siempre ridículas.

Porque los que se aman, si en verdad se aman,
Dicen y escriben cosas ridículas,
Porque el amor, el amor verdadero,
Te hace pensar en forma ridícula
Y te convierte finalmente en una persona ridícula
Pero quién alguna vez no ha sido ridículo?

Quién no ha dicho te amo, te adoro, mi cielo, mi sol
Y ha suplicado hasta el ridículo.
Plebeyo, o señor, sabio o bruto,
en cuestiones de amor son todos ridículos

Sólo los que nunca han amado,
los que nunca han creído
Se han salvado de gestos ridículos,
Los que por miedo al ridículo dicen que el amor es algo ridículo
Y viven así en su mundo ridículo,
Todos juntos, sin ningún amor,
Atrapados entre objetos y proyectos ridículos,
hablando de sus triunfos ridículos

Haciendo discursos ridículos, comportándose de un modo ridículo
Vanagloriándose de su machismo ridículo
Ridiculizando el amor con argumentos ridículos.
Pero el amor es sabio no es tonto,
Nunca anida en pensamientos ridículos,
Vuela por sobre sus ideales ridículos
Y se posa únicamente en corazones ridículos
Como el tuyo y el mío, que no se cansan nunca de hacer el ridículo.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

NAVEGAR É PRECISO. VIVER TAMBÉM É PRECISO!


Navegue, descubra tesouros,
mas não os tire do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admire a lua, sonhe com ela,
mas não queira trazê-la para a terra.
Curta o sol, se deixe acariciar por ele,
mas lembre-se que o seu calor é para todos.
Sonhe com as estrelas, apenas sonhe;
elas só podem brilhar no céu.
Não tente deter o vento,
ele precisa correr por toda parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não apare a chuva,
ela quer cair e molhar muitos rostos,
não pode molhar só o seu.
As lágrimas? Não as seque,
elas precisam correr na minha,
na sua, em todas as faces.
O sorriso! Esse você deve segurar,
não deixe-o ir embora, agarre-o!
Quem você ama?
Guarde dentro de um porta-jóias,
tranque, perca a chave!
Quem você ama é a maior jóia
que você possui, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira e se o milênio é outro,
se a idade aumenta;
conserve a vontade de viver,
não se chega a parte alguma sem ela.
Abra todas as janelas que encontrar
e as portas também.
Persiga um sonho,
mas não o deixe viver sozinho.
Alimente sua alma com amor,
cure suas feridas com carinho.
Descubra-se todos os dias,
deixe-se levar pelas vontades,
mas não enlouqueça por elas.
Procure, sempre procure
o fim de uma história, seja ela qual for.
Dê um sorriso
para quem esqueceu como se faz isso.
Acelere seus pensamentos,
mas não permita que eles te consumam.
Olhe para o lado, alguém precisa de você.
Abasteça seu coração de fé,
não a perca nunca.
Mergulhe de cabeça nos seus desejos
e satisfaça-os.
Agonize de dor por um amigo,
só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.
Procure os seus caminhos,
mas não magoe ninguém nessa procura.
Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!
Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudade, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o!
 
"Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada".

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O PASSADO E O PRESENTE : JUNTOS SEMPRE

 

O Passado é o Presente na Lembrança  

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

VAMOR NAMORAR?




Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. 
Namorado é a mais difícil das conquistas. 
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. 
Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. 
Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. 
A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. 
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. 
Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. 
Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. 
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. 
Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. 
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. 
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. 
Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. 
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.
De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. 
Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. 
Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.




Artur da Távola
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