terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Filosófo da semana



Dos pensadores clássicos, o neo-estóico Lúcio Sêneca
(4 a.C.-65 d.C.) está entre aqueles que nos deixaram material amplo e valioso sobre a arte de viver corretamente.
Como todo pensador da linha estóica, a idéia da indiferença
à dor e ao prazer é um conceito central em sua filosofia.

Sêneca nasceu em Córdoba, na Espanha, e foi educado em Roma. Passou algum tempo no exílio.
Mais tarde chegou a ser conselheiro do imperador Nero.
Finalmente, foi acusado de envolver-se em uma conspiração
contra o imperador e condenado ao suicídio.
Morreu com grande dignidade, fazendo do seu sacrifício
uma lição de amor à sabedoria.

A seguir, um breve diálogo com a obra desse pensador corajoso, cujas idéias são hoje tão atuais e inspiradoras
quanto no tempo do Império Romano.(1)


A vida humana é muito breve?

Sêneca – O tempo que temos não é curto, mas, perdendo
grande parte dele, fazemos com que ele seja.
A vida é suficientemente longa para realizar nela
grandes coisas, se a vivermos bem.
Mas se alguém passa o tempo no descanso e nos prazeres,
e não se ocupa em coisas elogiáveis, quando chega ao momento final, vemos que ele se foi sem ter podido compreender que caminhava.

O certo é que a vida que nos foi dada não é breve;
nós fazemos com que ela seja.
Não somos pobres de tempo, mas pródigos.
Acontece com o tempo da vida a mesma coisa que
com as grandes riquezas.
Se elas ficam em mãos de pessoas insensatas,
se dissipam em um instante; e, ao contrário,
as riquezas poucas e limitadas, estando em poder de administradores eficientes, crescem com o uso.
Assim, nosso tempo de vida é bastante grande
para os que fizerem bom uso dele.


Mas há muita gente que acredita que não tem tempo para ler, meditar ou buscar a sabedoria…

Sêneca – Não acredites naqueles que te disserem que
sua profissão os afasta dos estudos sérios;
se fazem de ocupados, mas não têm tantos compromissos assim;
a dificuldade para esses homens está em si mesmos.

Eu tenho tempo, meu caro, muito tempo; tenho tempo para tudo,
e onde quer que esteja disponho sempre de mim.
Eu me empresto à atividade profissional, não me entrego a ela;
nem procuro ocasiões para empregar mal meu tempo.
Em qualquer lugar que esteja, dirijo meus pensamentos
de acordo com a minha vontade e medito sobre algum objeto útil. Quando estou com meus amigos, não renuncio por isso à minha personalidade, e nunca passo meu tempo com aqueles que se aproximaram de mim por circunstâncias casuais ou pelos
deveres da vida social; passo meu tempo com aqueles
que considero pessoas boas.
Quanto a esses, estejam on-de estiverem e seja qual for
o século [em que viveram], meu espírito está com eles.


Um dos problemas do estudante moderno é que há uma quantidade enorme de livros para ler. A variedade é boa, por um lado, mas para alguns é difícil evitar a dispersão mental vivendo diante
de tantos estímulos.
Além dos livros há filmes, revistas, jornais,
dezenas de idéias e pouco tempo para colocá-las em prática...

Sêneca – O primeiro sinal de tranqüilidade interior é saber
fixar-se e não perder-se em divagações estéreis.
Mas evita o excesso de leituras, porque essa infinidade
de obras e autores de todo tipo pode significar superficialidade
e inconstância.
O estudante tem de dedicar-se a alguns autores escolhidos, alimentar-se da sua substância, para que alguma coisa fique gravada na alma.

Estar em todas as partes é não ir a parte alguma.
Quem passa a vida indo de um lado para outro faz muitos conhecidos e nenhum amigo.
Na leitura ocorre a mesma coisa que nas viagens;
a pessoa lê depressa, correndo, sem se deter em nenhum autor.
Um alimento que se engole com tamanha precipitação
não nutre nem tem proveito algum.
Não há nada pior para a cura de uma doença do que trocar continuamente de remédios. Uma ferida não cicatriza quando se troca o curativo a cada instante. A árvore que se transplanta muitas vezes não adquire vigor. (...) Ler muitos livros
diferentes distrai, mas não ensina. (...)
Tira das tuas leituras um pensamento para cada dia;
esse é o meu método: leio muito, e tiro algum proveito.


A sabedoria, então, consiste em contentar-se com aquilo
que está ao nosso alcance?

Sêneca – Eis aqui a frase das minhas leituras de hoje.
É de Epicuro (...): “A pobreza se contenta com pouco.”

Mas, se alguém se contenta com pouco, já não há pobreza.
Aceitar a pobreza é ser rico, porque pobre não é aquele
que tem pouco, mas aquele que deseja ter mais do que tem.
De que serve alguém ter caixas cheias de ouro,
armazéns cheios de grãos, possuir muitos rebanhos
e rendimentos, se ainda cobiça os bens alheios,
e se pensa menos no que possui e mais no que pode adquirir?
E qual é, portanto, a medida da riqueza?
Primeiro, o necessário; depois, o suficiente.


Certos estudantes das obras de Platão adotam uma visão
elitista da filosofia, como se ela fosse uma atividade
reservada para alguns poucos seres “superiores”
e aristocráticos.
O senhor se destaca por sua postura democrática,
na verdadeira tradição da sabedoria socrática...

Sêneca – Se algo de bom há na filosofia é o fato de não
olhar para os estratos sociais: todos os homens,
se se reportam à primeira origem, descendem dos deuses.
(...) O Senado não acolhe a todos, e mesmo o Exército
recebe com certa relutância até mesmo aqueles que depois manda
ao encontro de fadigas e perigos.
Mas a virtude é possível a todos, e todos somos nobres para ela.
A filosofia não recusa a ninguém e não faz escolhas especiais: brilha para todos.


O que é a verdadeira amizade?

Sêneca – Considerar alguém como amigo e não ter nele tanta confiança como em si mesmo é não conhecer todo o alcance da verdadeira amizade. Que o teu amigo seja o confidente
de todos os teus pensamentos – mas, antes disso, é preciso
avaliá-lo.
A confiança deve vir depois da amizade,
mas o discernimento deve vir antes.
É um absurdo confundir as coisas e violar o preceito
de Teofrasto, tendo intimidade com alguém antes de conhecê-lo, para então romper com ele ao conhecê-lo.

Medita muito antes de dar tua amizade a alguém.
Uma vez dada a amizade, abre a tua alma a teu amigo,
com tanta confiança nele como em ti mesmo.

Vive de tal maneira que possas revelar todos os teus pensamentos até mesmo a teu inimigo; mas, como sempre há coisas íntimas
que os costumes sociais converteram em segredos,
derrama na consciência de um amigo todos os teus pesares,
todos teus pensamentos: acredita que ele é fiel, e ele será. Quantas vezes, de fato, as pessoas ensinam a enganar,
temendo ser enganadas!
A desconfiança provoca e autoriza a infidelidade.


Como se pode obter o equilíbrio entre movimento e estabilidade?

Sêneca – O movimento contínuo e o contínuo repouso devem ser igualmente rejeitados. O tipo de atividade que busca o barulho revela uma alma inquieta e agitada; e olhar com medo qualquer movimentação não é aproveitar o repouso, mas é cair na fraqueza e na languidez.
Pensa nessa passagem que li em Pompônio:
“Há olhos tão acostumados com a escuridão
que na claridade enxergam mal.”
É preciso combinar os dois estados:
a ação deve vir depois do descanso,
e o descanso deve acontecer depois da ação.
Interroga a natureza, e ela te dirá!

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