quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Casamento Faliu?


O Casamento Faliu

Eu e minha mulher vamos nos casar no dia 8 de maio.

Caso você seja um conhecido nosso e fique chateado de saber por aqui, não fique. Ninguém foi convidado pra nada, não vai haver festa. Simplesmente assinaremos os papéis no cartório e pronto. Tudo bem anti-climático mesmo. Eu, sinceramente, não estou dando a mínima. Na minha cabeça, casei com ela quando fomos morar juntos, um ano e meio atrás. Esse foi o compromisso. O resto é burocracia. Papelada pra sogro ver.

Pensando em nosso casamento próximo, assistimos juntos ao Globo Repórter de sexta-feira retrasada.

Tenho duas observações a fazer. A primeira é rápida. Que bom que já está começando a se perceber que divórcio dos pais não é nenhum fim do mundo pros filhos. Meus pais se separaram quando eu tinha 12 anos de idade e foi ótimo. As crianças sabem quando o casamento não vai bem, ninguém quer ver os pais casados por culpa, por ressentimento. É muito melhor ter duas casas, e ter dois pais felizes, independentes, ativos, do que ser filho de pais casados há 50 anos e que se odeiam. Enfim, eu nunca entendi todo o escândalo que faziam sobre isso e é bom ver que as coisas estão mudando.

E dois, acho a maior graça mesmo, isso me faz rir, ver que todo mundo se refere a um casamento que acaba como fracassado. Fulano e fulana foram felizes por quinze anos, até que seu casamento fracassou.

Caramba, isso é como dizer que Dom Pedro I foi um fracasso só porque ele morreu. Todo mundo morre. Assim como todo casamento acaba. O que importa é o que acontece antes disso. Julgar um casamento por sua duração é, simplesmente, não entender o que faz de um bom casamento um bom casamento.

Vou dar um exemplo. Estou casado há um ano e meio e tenho sido delirantemente feliz. Se amanhã - não dizem que assinar papel muda tudo? - as coisas começarem a ficar ruins e, lá pra agosto, mesmo depois de tentar reverter a situação, eu perceber que a felicidade se esvaiu, duas coisas podem acontecer:

1) eu dou um beijo na testa da minha esposa, junto meus livros e saio porta afora, pra perseguir minha felicidade, depois de um casamento de dois anos absolutamente feliz e muito bem-sucedido.

2) ou então, eu fico. Trinco os dentes e fico. Agüento tudo, engulo a raiva e a tristeza e fico. Tento consertar, não consigo, e fico. Depois de quinze anos, não suporto mais, tenho que ir embora. É o fim de um casamento de quinze anos absolutamente infeliz e mal-sucedido.

A função cultural do casamento é uma só: proteger o mais fraco, seja ele a mulher ou os filhos. Se não fosse o casamento, qual seria a tendência da maioria dos homens? Casar, emprenhar a esposa diversas vezes, mantê-la em casa fazendo coisas de mulherzinha, acumular dinheiro. Um belo dia, ele iria se ver com os filhos crescidos e morando com uma velha. Pra que sustentar a velha? Ela, que não se educou, não trabalhou, só sabe parir e não tem como se defender nem se manter, seria sumariamente posta na rua, pra morrer de fome, e o garboso marido compraria duas de 18.

Por isso, a instituição casamento visa proteger esse lado mais fraco, dificultando o processo de separação e criando a instituição da pensão alimentícia para mulheres (só as que não trabalham!) e para os filhos pequenos.

Tudo isso é muito bonito e muito justo. E, quando ambos os cônjuges estão em posição de igualdade social e econômica, também muito desnecessário.

Eu e minha mulher temos nossas vidas, nossas carreiras, nosso dinheiro. Ninguém sustenta ninguém. Se eu deixar de amá-la, ela não precisará da proteção da lei pra não passar fome. Pelo contrário, como é mulher decidida, com auto-estima e respeito próprio, ela vai ser a primeira a não querer viver com um homem que não a ama. Dividiríamos livros, móveis e CDs, e ela iria pra um apartamento seu, pago com seu próprio dinheiro. Ponto.

Somos dois adultos livres. Se eu não quiser mais morar com ela e ela não quiser mais morar comigo, não vejo que direito tem a lei de dificultar ou atrasar esse processo, de me dizer que não posso casar de novo por tanto tempo, etc. Não preciso que a lei proteja meu casamento. O casamento é meu, eu o desfaço quando quiser.

A lei não está do lado das pessoas, mas das instituições. Não do lado dos cônjuges, mas do casamento em si, da família, dessas abstrações. E é fato sabido que, muitas vezes, essas coisas se auto-excluem. Muitas vezes, o casamento só se mantém à custa de uma extrema infelicidade de seus participantes. E, nesses casos, a lei está sempre do lado do casamento, nunca das pessoas. O casamento, entidade viva, deseja sobreviver a todo custo, mesmo que isso signifique infelicidade pra homem, mulher, crianças, gatos e cachorros.

Por isso, o casamento faliu. Por isso, hoje, o casamento não serve mais pra nada.

Vocês devem estar pensando: pôxa, que discurso romântico, vindo de um homem que vai casar em duas semanas. Mas esse é o ponto: não vou casar. Já casei, há um ano e meio, e foi a coisa mais incrível que fiz na minha vida. Não tenho como estar mais casado do que estou.

Dia 8 vou só assinar um papelzinho.

Sobre o autor :http://www.sobresites.com/alexandrecruzalmeida/artigos/faliu.htm

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