sábado, 9 de janeiro de 2010

A filosofia da Mente


A história da filosofia é marcada por questões como: O que é a mente? Qual é a natureza de um pensamento? Qual é a natureza de uma emoção? O que distingue a mente de outros objetos no espaço? O pensamento é eterno? Serão cérebro e mente uma só e mesma coisa? O que caracteriza algo como mental? Ou seja, qual é a propriedade que um objeto mental possui que o difere das outras coisas? Estas questões, pode-se dizer, são questões metafísicas tradicionais e que recentemente, mais precisamente no século XX, têm sido tratadas especificamente pela disciplina denominada filosofia da mente. A mente sempre foi um enigma, talvez pelo fato de os fenômenos mentais serem invisíveis e inacessíveis para nós. A psicologia, por exemplo, quer fazer uma ciência da mente, um mapeamento completo do comportamento humano, mas até hoje não obteve resultados conclusivos. Ao contrário, a neurociência nas últimas décadas parece ter conseguido alguns avanços importantes na tentativa de explicar a natureza do mental. Explicar o que é filosofia da mente e qual é a sua relação com tudo isto que foi levantado não é uma tarefa curta, mas também não é o objetivo deste texto apresentar uma análise profunda das questões filosóficas envolvidas, e sim dar uma noção introdutória dos problemas e discussões que são levantadas por esta disciplina.

Nas últimas décadas, temos observado um enorme desenvolvimento da neurociência. Agora cabe a pergunta, será que este recente campo de investigação científica é capaz de definir a natureza da mente? Se olharmos um cérebro veremos diversas células nervosas, mas será que veremos um sentimento, uma idéia? Isto é, se é correto classificar os fenômenos mentais como imperceptíveis à nossa visão. Quanto a este ponto alguém poderia dizer que os átomos são invisíveis aos olhos humanos, mas disto não se segue que eles não existam ou que nós não possamos estudar a sua natureza. Em relação aos átomos é fácil mostrar que com uma aparelhagem correta, como, por exemplo, um microscópio, eles se tornam visíveis. Mas, quanto aos fenômenos mentais será que mesmo usando um microscópio de alta tecnologia enxergaríamos um pensamento ou uma emoção?

Um neurocientista poderia refutar isto afirmando que é claro que ao analisar um cérebro só enxergaria células nervosas interagindo umas com as outras e com outras células; não podendo assim ter um contato imediato com pensamentos ou emoções. Mas um físico também não enxerga a aceleração, a gravidade, e mesmo assim se vale destes conceitos com a maior naturalidade. Em relação à física poderíamos dizer que a partir de certas propriedades analisadas nos objetos podemos medir uma alteração das massas ou da velocidade, mas realmente não entraríamos em contato com a velocidade ou a massa. Portanto o que fazemos na física é estabelecer certas relações objetivas entre os objetos naturais. Ainda assim, não seria sensato pensarmos que é possível medir a quantidade de alegria ou medir uma idéia em sua natureza, pois os fenômenos mentais parecem ocorrer de uma forma essencialmente subjetiva.

Todas estas questões levantadas estão em aberto, havendo mais do que nunca um espaço para investigação filosófica e de pesquisas afins. É sabido que desde os seus primórdios a filosofia investigava a natureza do mental, mas não de uma maneira tão enfática como a psicologia a partir do século XIX, ou ainda mais recente, a filosofia da mente.

Fenômenos mentais são invisíveis e impossíveis de serem medidos, afirmando assim uma distinção entre a mente e cérebro. Mas será correto afirmar que a mente e o cérebro são completamente independentes um em relação ao outro? Por exemplo, se tenho uma dor de cabeça, ou seja, algo essencialmente particular, isto é, só eu posso dizer se estou sentido ou não, tomo um remédio e a dor passa. Diríamos que a substância química presente no remédio agiu na mente ou no cérebro. Ou ainda uma pessoa que tenha sofrido um grave acidente e perdido ou danificado uma parte de seu cérebro não tem problemas em relação a sua atividade mental? Portanto, seria demasiado radical dizermos que a mente e o cérebro são completamente diferentes. O problema é saber como esta ligação é estabelecida de que forma posso dizer que os meus impulsos nervosos conectam-se com as minhas emoções e pensamentos.

Com o avanço tecnológico, principalmente após a Segunda Guerra, os estudos sobre o cérebro avançaram muito, assim como a inovação computacional. Estes fatos trouxeram novas perguntas como, será um cérebro igual a um computador? Filósofos e a comunidade científica de uma maneira geral voltaram-se para o estudo da natureza do cérebro.

A filosofia, no início do século XX, tinha mais preocupação com as questões da linguagem. Esta vertente sugeria que todos os problemas da Filosofia da Mente nada mais eram do que ilusões. Ilusões produzidas pela própria linguagem, que teria se tornado um imenso labirinto na qual a reflexão teria se enredado e se perdido. Seria inútil refletir sobre a mente sem antes refletir sobre a linguagem (falo aqui principalmente de Russell, Wittgenstein, Ryle e Searle).

O problema da conexão mente-cérebro não é recente, pois foi Descartes (1596-1650) que pela primeira vez formulou explicitamente a necessidade de se distinguir entre mente e corpo. Como foi dito, desde a Antigüidade a filosofia já debatia as questões sobre a imortalidade e imaterialidade da mente (alma). Mas foi Descartes que revigorou a ênfase na pesquisa da mente no mundo moderno.

Existiam, na Modernidade, duas teses principais a respeito da natureza da mente, a saber, o monismo e o dualismo. O monismo é a tese que sustenta que só existe um tipo de substância na realidade, ou seja, a teoria de que não existe nada além da matéria e suas possíveis apresentações no mundo. De acordo com essa visão os fenômenos mentais são idênticos aos físicos, pois a mente e o cérebro são a mesma coisa. Por outro lado, o dualismo sustenta que há duas substâncias no mundo, uma essencialmente material e outra essencialmente imaterial. Assim, nunca poderíamos dizer coerentemente que mente e corpo (cérebro) são iguais diferindo apenas em nome; o cérebro é material e a mente é imaterial.

Após esta definição vemos que Descartes era um dualista. Mas o que isto implica para o nosso problema, a saber, qual a natureza da mente e de seus fenômenos? O argumento de Descartes para postular o dualismo é basicamente: Tudo o que é físico é divisível, isto é, todo objeto que possui extensão pode ser dividido indefinidamente. Os pensamentos não podem ser divididos, pois seria absurdo pensar que podemos separar nossas idéias em partes. Logo a mente e os seus fenômenos têm uma natureza não física, ou seja, imaterial.

Se aceitarmos a perspectiva dualista, temos que imediatamente responder a pergunta: Como a mente imaterial interage e influencia com o meu corpo material? Descartes pretendeu responder a estes problemas. Ele falava da existência de um órgão capaz de efetuar este elo entre a mente e o corpo, e este seria a glândula pineal (que hoje sabemos ser a hipófise). Mas como seria isso possível, Descartes não deixa claro. Pois, para algo ser um elo entre o material e o imaterial tem que ser parte material e parte imaterial, o que é, ao menos aparentemente, contraditório. Com isto, temos um problema, a saber, adotar uma posição materialista ou dualista. Temos argumentos para ambas, mas sempre há dificuldades nas tentativas de estabelecer uma igualdade entre o mental e o físico ou para estabelecer que o mental e o físico são substâncias independentes.

Este debate foi retomado a partir dos progressos da neurociência e o surgimento da psicanálise de Freud. Foram estas tendências que tornaram a filosofia da mente uma disciplina específica. Portanto, é dever da filosofia da mente analisar tanto teorias psicológicas como teorias neurofisiológicas e tentar estabelecer quais são as diferenças irreconciliáveis ou as posições compatíveis e doravante postular uma estrutura do funcionamento mental.

Referência: TEIXEIRA, João (org.), Cérebros, Máquinas e Consciência: uma Introdução à Filosofia da Mente. UFSCAR, 1996.
Por Hugo Dahler, disponível em http://www.speculum.art.br/novo/?p=2165, pesquisa em 08/01/2010.

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